sexta-feira, 11 de junho de 2010

EPITÁFIO

Por favor, não me chame atenção quando chegar atrasada. Basicamente, estou sempre no “tarde demais”. Até quando chego no horário combinado, já se passou da hora...

Por favor, não me acorde... Minha consciência já acusa meus erros constantemente. Já é duro demais ouvir a mim mesma, não suportaria críticas a mais.

Pare, deixe tudo em silêncio. Não é preciso muitas palavras, bastam apenas gestos. Deixe-me apenas, um abraço.

Frases como “pensei em ligar para você, passei em frente a sua casa, queria ter lhe visto, quase atravessei a rua quando vi que estavas do outro lado! Pensei, pensei...” Não me servem! Pensamentos não me bastam, intenções eu já nem quero. Se quiser algo, faça.

Seu eu partir, deixe tudo em segredo, pois do passado só restam lembranças, e do futuro, apenas projetos. Reserve-me então, este momento.

Não me fale de sinfonias e melodias, pois canções são como marcas do tempo, que quando tocadas são levadas pelo vento... E as marcas do tempo, ah! São pensamentos que nos fazem viver sob a sombra do que poderia ter sido, do que poderíamos ter vivido e não vivemos... Viver a margem de nós mesmos é como um câncer que corrói. Machuca a alma.

Não, eu não quero ler poemas, tão pouco escrevê-los. Seria muita petulância de minha parte, pois para se colocar palavras em uma folha, é preciso ter intimidade com elas. Mais do que isso, necessário se faz ter respeito. Como ousaria expor-las?!

Assim como a escrita requer intimidade, a fala requer sabedoria. Ousaria de que maneira pronunciar TE AMO? Eis que já ouço cansada, o uso do vulgo “eu te amo”. Por vezes, soa como se fosse programado in “user join” (usuário registrado).

Conheça-me: Leia meus lábios quando sorrirem, leia meus olhos quando me despedir, observe meu caminhar quando partir... Ou quem sabe, me procure quando me perder.

Não interpretarei um papel que não escolhi, nem inventarei sentimentos que não vivi. Nesta tela, não sou pintora e no teatro, também não sou protagonista. Sou dos livros, das estantes, do silêncio e dos pensamentos... Esses que ficam perdidos nas entrelinhas. Aqui jaz, enfim... A mulher que condenada a ser um sonhador, morreu menina. Sou apenas, o pó, apenas metade de mim.